Percurso Criativo

Criar é como percorrer um caminho que ainda não existe. É preciso estar em um só tom desperto e relaxado. Para ver, para sentir. É um outro tipo de economia, de administração de recursos, não cabe na lógica pragmática. Nunca caberá, é de outra ordem. Tentar encaixar o lirismo da criação nas planilhas para se cercar de previsibilidade é negar o êxtase da vida. Para lidar com algo novo é preciso se entregar. É muito mais Kairós e muito menos Chronos.

Então vamos falar sobre entrega. Em minha trajetória dentro da arquitetura e urbanismo, fui desenvolvendo a habilidade de não me projetar nas criações, mas fazer uma kenosis, um esvaziamento de mim, para enxergar as necessidades das pessoas implicadas em cada projeto que fazia. Porém, nos últimos anos, fui percebendo que esta habilidade, apesar de lícita, era, a partir de um ponto, ilegítima, insuficiente ainda, apenas um preâmbulo da entrega real. 

Embora todo esse cuidado fosse adequado e válido; embora fosse esse o modus operandi que considerava justo, correto, ético; embora já houvesse me valido dele para tantos projetos, embora fosse o que de melhor eu poderia oferecer, ainda assim era insuficiente.

Foi que nos últimos anos, passei por um longo esgotamento que minou minha produtividade até chegar a um intrincado desequilíbrio hormonal. E por que estou falando sobre isso ao falar sobre percurso criativo? Porque entendi que criar passa pela pessoalidade.

No caso específico do projeto desenvolvido neste período, a Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz, entendi que através da improdutividade que me tomou, passei eu também pela cruz. Então pude falar sobre essa dor com autoridade através da arte: agora entendia o que é carregar a própria cruz, nela ser crucificada e então ressurgir. Vivendo essa experiência, fui compreendendo a insuficiência da kenosis: não bastava conduzir à transcendência me esvaziando de mim. Era necessário chegar à transcendência pela imanência. Sim, passaria por mim, pela minha história, pelo meu olhar. Não como uma história que acredito, e porque creio a conto através da arquitetura. É a história que vivo, é a minha história, a matéria da condição humana. Vivo a experiência na minha carne: a escrevo em franca travessia do mar vermelho pessoal.

Essa pessoalidade, de estar implicada na vivência do que se cria, de certa forma fundida, em via gestacional, é minha escolha enquanto sujeito individuado, enquanto mulher, e portanto também enquanto arquiteta e urbanista.

Janice Dantas

Imagem: Vitrais da Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz, Comunidade Católica Shalom, Aquiraz CE. Fonte: arquivo próprio

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