Passado interessa?

A quem?

Assim fica o humano desconsiderando o passado: aquém de si mesmo. Uma cidade, um povo que desdenha do que construiu: aquém de suas possibilidades de futuro.

Quando se fala em preservação do patrimônio, não é sobre pedras e tijolos antigos, mas sobre narrativas de formação. É sobre constituição, não a lei, mas como se constitui uma cultura. 

E por cultura, entenda-se, falo da forma de funcionar de uma determinada sociedade ao longo do tempo e materializada de várias formas, do vestuário às construções. 

As obras edificadas cristalizam o tempo em que foram erguidas. Anunciam claramente valores.

E tudo precisa ser preservado, só por ser antigo?

Não. Há construções antigas com má qualidade de projeto, que não dizem muito, assim como hoje há. Mas se houver valor arquitetônico e histórico, sim, precisa ser preservado.

Interessa o valor da obra diante de uma cultura.

Um bem imóvel pode ter se tornado um bem cultural, e isso ultrapassa em muito o valor econômico. É quando metros quadrados se tornam mais que área. É que o humano existe para além da objetividade; possui também uma subjetividade bem desenvolvida.

Por isso passado interessa. Porque para além do meramente objetivo, somos seres históricos.

Janice Dantas

Imagem: Montagem dos vitrais da fachada principal da Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz. Fonte: Arquivo próprio

Muitas geometrias

Há uma infinidade de geometrias: descritiva, analítica, espacial…

Meios de “medir a terra”. 

Na minha visão sobre a arquitetura e o urbanismo, influenciada pelo sempre mestre Napoleão Ferreira, geometria é pilar, é estruturante.

Uso de três formas, cotidianamente:

Tem a geometria mais ligada ao conceito de arquétipos universais. Faz ponte com a simbologia, com o que as formas nos comunicam de modo profundo, muitas vezes inconsciente. Penso que a forma é sobre o conteúdo. Só após um olhar demorado sobre o conceito que aquela edificação deseja expressar é que se chega a formas potentes, que comunicam por si só, se traduzem naturalmente, expressam de forma clara, se valem da riqueza simbólica que a humanidade construiu e segue construindo através dos tempos.

Depois, existe a geometria relacionada à modulação do espaço, que se torna imprescindível, não é acessória. É o momento de racionalização do projeto, depois de um consistente mergulho conceitual e simbólico.

E o que falar da geometria da insolação? A dança entre sol e terra que interfere na vida; e portanto também nos espaços edificados. Sabemos que a terra se movimenta em torno de si e do sol, mas em conforto ambiental chamamos a repercussão dessa dança terrestre de movimento “aparente” do sol. Em cada latitude o sol se reflete de modo diferente, em cada ponto da terra essa movimentação gera diferentes consequências. Daí os fusos horários e as estações. Lembra rotação e translação? É o mover planetário que se torna geometria, vira espécies de plantas baixas do sol sobre a terra; e utilizamos esses instrumentos para definir implantações das edificações, suas posições e para projetar proteções solares para fachadas. De acordo com clima, horários do dia e estações do ano. É uma geometria surpreendente e precisa! Necessária também.

Mensurar o tangível faz parte da arte. Para isso, muitas geometrias. Ainda bem!

Janice Dantas

Imagem: Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz. Fonte: comshalom.org

Singularidade

Havíamos concluído o projeto dos vitrais da igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz. A ordem seria passarmos à criação das portas. Mas a ideia delas não estava madura dentro de mim. O que estava latente eram os bancos. Ora, os bancos da nave de uma igreja não têm simbologia, servem apenas a uma função: acolher a assembléia. Mas estava inquieta, entusiasmada com a riqueza e a dignidade da singularidade humana. Os bancos precisavam expressar que não somos todos iguais, prontos a seguir um padrão único. Resolvi prototipar um banco e ir entendendo como imprimir a diferença em cada um. Foi quando recebi uma valiosa sugestão: usar madeiras com costaneiras, as marcas das cascas de cada árvore. Então todos os bancos seriam naturalmente diferentes: a singularidade da madeira refletiria a singularidade humana!

A partir dessa definição já poderia comprar a matéria-prima para produzir o protótipo do banco. Mas, após procurar o material nas lojas varejistas de toda a cidade, por valores acessíveis para produzir apenas um banco, só consegui encontrar uma sobra de madeira com costaneira, toda empenada, furada por bichos, muito danificada. Pareciam impróprias para uso. Segui assim mesmo. Acontecia que procurei a madeira dando-lhe sentido, mas à medida que me aproximava dela, manuseava, cortava, lixava, ela ia me devolvendo significados: lixando as camadas superficiais e chegando ao seu cerne, ela mostrava sua beleza e dignidade. Veja: eu não lhe dei dignidade, ela mostrou apenas o que já tinha internamente. Assim é a madeira, assim somos nós. E a arte é fecunda quando evidencia verdades como esta. Os furos feitos pelos bichos, que a princípio incomodaram, não foram tamponados. Ao contrário, deixaram transparecer a força da árvore, que resistiu, sobreviveu. Tais marcas se tornaram sua beleza mais pascal. E não é assim conosco? Isso tudo não fala da condição humana?

Janice Dantas

Imagem: Protótipo do Banco Singular. Fonte: arquivo próprio

Percurso Criativo

Criar é como percorrer um caminho que ainda não existe. É preciso estar em um só tom desperto e relaxado. Para ver, para sentir. É um outro tipo de economia, de administração de recursos, não cabe na lógica pragmática. Nunca caberá, é de outra ordem. Tentar encaixar o lirismo da criação nas planilhas para se cercar de previsibilidade é negar o êxtase da vida. Para lidar com algo novo é preciso se entregar. É muito mais Kairós e muito menos Chronos.

Então vamos falar sobre entrega. Em minha trajetória dentro da arquitetura e urbanismo, fui desenvolvendo a habilidade de não me projetar nas criações, mas fazer uma kenosis, um esvaziamento de mim, para enxergar as necessidades das pessoas implicadas em cada projeto que fazia. Porém, nos últimos anos, fui percebendo que esta habilidade, apesar de lícita, era, a partir de um ponto, ilegítima, insuficiente ainda, apenas um preâmbulo da entrega real. 

Embora todo esse cuidado fosse adequado e válido; embora fosse esse o modus operandi que considerava justo, correto, ético; embora já houvesse me valido dele para tantos projetos, embora fosse o que de melhor eu poderia oferecer, ainda assim era insuficiente.

Foi que nos últimos anos, passei por um longo esgotamento que minou minha produtividade até chegar a um intrincado desequilíbrio hormonal. E por que estou falando sobre isso ao falar sobre percurso criativo? Porque entendi que criar passa pela pessoalidade.

No caso específico do projeto desenvolvido neste período, a Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz, entendi que através da improdutividade que me tomou, passei eu também pela cruz. Então pude falar sobre essa dor com autoridade através da arte: agora entendia o que é carregar a própria cruz, nela ser crucificada e então ressurgir. Vivendo essa experiência, fui compreendendo a insuficiência da kenosis: não bastava conduzir à transcendência me esvaziando de mim. Era necessário chegar à transcendência pela imanência. Sim, passaria por mim, pela minha história, pelo meu olhar. Não como uma história que acredito, e porque creio a conto através da arquitetura. É a história que vivo, é a minha história, a matéria da condição humana. Vivo a experiência na minha carne: a escrevo em franca travessia do mar vermelho pessoal.

Essa pessoalidade, de estar implicada na vivência do que se cria, de certa forma fundida, em via gestacional, é minha escolha enquanto sujeito individuado, enquanto mulher, e portanto também enquanto arquiteta e urbanista.

Janice Dantas

Imagem: Vitrais da Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz, Comunidade Católica Shalom, Aquiraz CE. Fonte: arquivo próprio

Arquitetura de Síntese

Arquitetura de Síntese agora é Stalero. O conceito de Síntese continua sendo marca do nosso trabalho, onde cada detalhe importa e influencia o todo. 

A primeira ação do Stalero será produzir conhecimento. Concentraremos forças na produção de literatura artística e técnica. O alcance da linguagem escrita como via transmissora de saberes é inegável. Assim, a próxima empreitada de trabalho será uma revisita à nossa trajetória até aqui, culminando com o lançamento de publicações sobre arquitetura de síntese, fenomenologia, urbanismo, simbologia, arte sacra, conforto ambiental, sustentabilidade, bioclimatismo.

Vamos começar compartilhando conceitos e simbologia do projeto de síntese a que nos dedicamos nos últimos anos – mergulho abissal.

“A certeza de que a ordem se realizou precede a percepção das qualidades materiais. Tal realização é uma fonte de alegria. Não há obra de arte sem a alegria que reina na elaboração.” Louis Kahn

Janice Dantas

Imagem: Fachada da Igreja do Ressuscitado que passou pela Cruz, Comunidade Católica Shalom, Aquiraz CE. Fonte: arquivo próprio